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Livro de Coleção — Apologética Católica

Pode um católico professar a fé na Ressurreição e, ao mesmo tempo, aceitar a reencarnação? Pode recorrer aos Sacramentos da Igreja e simultaneamente consultar entidades espirituais? Pode reconhecer em Cristo a plenitude da Revelação e, ainda assim, admitir mensagens mediúnicas como uma revelação posterior ou complementar?

É diante dessas questões que Frei Boaventura Kloppenburg apresenta Posição Católica Perante a Umbanda, uma obra de esclarecimento religioso e apologética escrita para definir, de maneira direta, aquilo que o autor considera serem as diferenças fundamentais entre a doutrina católica e as crenças e práticas umbandistas.

Publicada originalmente em 1954 pela Editora Vozes, a obra surgiu num Brasil em que a Umbanda experimentava rápida expansão e no qual, segundo Frei Boaventura, muitos católicos frequentavam simultaneamente igrejas, terreiros, tendas e centros sem compreender plenamente as diferenças doutrinárias existentes entre esses ambientes religiosos.

O próprio autor explica a razão de seu trabalho: acreditava que grande parte dessa aproximação ocorria por falta de esclarecimento. Após constatar que havia pouca literatura católica dedicada especificamente ao assunto, julgou necessário apresentar aquilo que chamou de uma verdadeira “posição católica perante a Umbanda”.

O resultado é uma obra que não procura analisar a Umbanda de maneira neutra ou simplesmente etnográfica.

Seu propósito é explicitamente confessional e apologético.

Frei Boaventura escreve a partir da doutrina católica e procura demonstrar que Catolicismo e Umbanda, embora possam empregar alguns símbolos e nomes semelhantes, partem de fundamentos religiosos que considera profundamente incompatíveis.

Um estudo construído a partir das fontes umbandistas de seu tempo

Uma das características mais marcantes da obra é o método utilizado pelo autor.

Em vez de limitar-se a condenações genéricas, Frei Boaventura consulta e cita uma grande quantidade de livros, catecismos, periódicos, congressos e declarações produzidos pelos próprios umbandistas das décadas de 1940 e 1950.

Entre as fontes examinadas encontram-se publicações de autores como Emanuel Zespo, Oliveira Magno, Lourenço Braga, Jayme Madruga, Aluizio Fontenelle e outros representantes do movimento.

O autor começa justamente apontando aquilo que considera uma grande dificuldade: a existência de numerosas interpretações concorrentes sobre o que seria a própria Umbanda. Reproduz afirmações de autores umbandistas que reconheciam divergências doutrinárias, diferenças entre terreiros e a ausência, naquele período, de uma completa uniformidade de definições e práticas.

A obra torna-se, assim, também um interessante documento sobre o debate religioso brasileiro de meados do século XX.

Umbanda e Espiritismo

Um dos primeiros grandes argumentos apresentados por Frei Boaventura diz respeito à relação entre Umbanda e Espiritismo.

O autor examina a evocação dos espíritos e, principalmente, a doutrina da reencarnação, que considera decisiva para estabelecer uma proximidade substancial entre a Umbanda e o espiritismo kardecista.

Para fundamentar essa conclusão, reproduz documentos umbandistas da época, incluindo catecismos, obras oficialmente adotadas por organizações do movimento e conclusões de congressos.

Entre eles encontra afirmações de que a doutrina umbandista aceitava a evolução espiritual através de sucessivas reencarnações e incorporava grande parte das concepções formuladas no espiritismo de Allan Kardec.

É justamente neste ponto que surge uma das incompatibilidades fundamentais apontadas pelo livro.

Para Frei Boaventura, reencarnação e Ressurreição não são duas maneiras diferentes de expressar uma mesma crença, mas concepções distintas sobre a vida, a morte, a redenção e o destino último do homem.

Na perspectiva católica defendida pela obra, a existência terrena é única, seguida do juízo, da ressurreição dos mortos e da vida eterna. A sucessão de existências como mecanismo de evolução ou purificação espiritual seria, portanto, incompatível com esse ensinamento e com o papel central atribuído à graça e à Redenção de Cristo.

A chamada “Quarta Revelação”

O livro dedica ainda atenção à ideia, encontrada em autores umbandistas consultados pelo autor, de que a Umbanda representaria uma espécie de “Quarta Revelação”.

Dentro da sequência examinada por Frei Boaventura, Moisés representaria a primeira revelação, Cristo a segunda e Allan Kardec a terceira, enquanto determinados autores umbandistas atribuíam à Umbanda uma etapa posterior e mais completa.

Frei Boaventura reproduz textos nos quais a Umbanda é apresentada como desenvolvimento ou ampliação da revelação kardecista, incorporando outras categorias de espíritos e uma ritualística própria.

Para o autor, essa pretensão entra diretamente em conflito com a doutrina católica segundo a qual a Revelação encontra sua plenitude em Nosso Senhor Jesus Cristo.

É impossível, dentro da lógica defendida no livro, reconhecer Cristo como a revelação definitiva de Deus e simultaneamente admitir uma revelação religiosa posterior destinada a corrigi-lo, completá-lo ou superá-lo.

Umbanda, magia e evocação dos espíritos

Outro dos maiores capítulos da obra é dedicado àquilo que Frei Boaventura identifica como magia.

A partir das próprias definições presentes nas obras umbandistas consultadas, ele analisa o uso religioso de elementos como:

  • pontos cantados e riscados;

  • oferendas e despachos;

  • evocação e incorporação de entidades;

  • búzios e práticas divinatórias;

  • banhos e ritos de purificação;

  • objetos empregados nos trabalhos;

  • práticas mediúnicas;

  • rituais destinados à cura ou à intervenção espiritual.

Em uma das definições reproduzidas pelo próprio livro, autores umbandistas descrevem a Umbanda em termos de práticas mágicas realizadas por intermédio de forças invisíveis e de elementos rituais específicos.

Frei Boaventura confronta essas práticas com diversos textos bíblicos utilizados tradicionalmente pela apologética cristã contra a necromancia, a adivinhação e a magia.

Sua conclusão é inequívoca: na posição doutrinária defendida pela obra, o católico não pode recorrer a práticas mágicas nem provocar a evocação dos mortos ou de entidades espirituais.

O problema do sincretismo religioso

Talvez um dos temas mais importantes de Posição Católica Perante a Umbanda seja o sincretismo.

Crucifixos, imagens de santos, nomes cristãos, orações e referências a Jesus podem aparecer dentro de ambientes religiosos umbandistas.

Para Frei Boaventura, porém, a utilização desses elementos não elimina as diferenças doutrinárias existentes.

O autor observa que tendas e centros de sua época utilizavam frequentemente nomes de santos católicos e mantinham imagens cristãs em seus altares. Também registra correspondências estabelecidas entre santos do Catolicismo e entidades ou orixás da Umbanda.

É precisamente essa proximidade externa que, segundo ele, pode provocar confusão.

Para a argumentação do livro, uma imagem católica inserida em outro sistema religioso não conserva necessariamente o mesmo significado teológico que possui dentro da Igreja.

Assim, o problema não estaria simplesmente na presença ou ausência de uma cruz, de uma imagem de Nossa Senhora ou do nome de Jesus, mas naquilo que se acredita sobre Deus, Cristo, a salvação, a alma humana, a revelação e a vida após a morte.

A obra insiste, portanto, numa distinção fundamental:

semelhança de símbolos não significa identidade de fé.

A posição católica propriamente dita

Depois de examinar extensamente as doutrinas e práticas encontradas nas fontes umbandistas de sua época, Frei Boaventura apresenta finalmente aquilo que considera ser a atitude coerente do católico.

A seção “Posição Católica Perante a Umbanda” sintetiza seu raciocínio em uma série de princípios.

O ponto de partida é o mandamento do amor a Deus. A partir daí, o autor sustenta que o fiel deve rejeitar práticas que considere incompatíveis com os mandamentos divinos e com a doutrina recebida pela Igreja.

É por isso que conclui ser impossível, dentro da posição teológica defendida no livro, aderir simultaneamente ao Catolicismo e à Umbanda.

Mais adiante, no capítulo “Normas de uma Atitude Prática Perante a Umbanda”, transforma essa conclusão em orientações concretas destinadas ao leitor católico.

O livro trata da participação em sessões, adesão a organizações religiosas, consulta a médiuns, práticas divinatórias e terapêuticas religiosas, sempre a partir da disciplina e da teologia católicas vigentes no período em que a obra foi escrita.

Essas passagens devem naturalmente ser lidas dentro de seu contexto histórico e eclesiástico, inclusive porque determinadas formulações disciplinares presentes numa obra de 1954 refletem o ambiente canônico e pastoral daquele período.

Um retrato do Brasil religioso dos anos 1950

Além de sua finalidade apologética, a obra possui hoje outro interesse: ela registra um momento particular da história religiosa brasileira.

Frei Boaventura escreve sobre congressos umbandistas, publicações, federações, terreiros e controvérsias que estavam em plena atividade quando o livro foi produzido.

Logo no início, cita estimativas sobre a proliferação de tendas e centros no Rio de Janeiro e em outras regiões e descreve a preocupação pastoral que essa expansão provocava em setores do Catolicismo brasileiro.

Estamos, portanto, diante não apenas de um texto religioso, mas de um documento da história das relações entre Catolicismo, Espiritismo e Umbanda no Brasil do século XX.

Uma obra de Frei Boaventura Kloppenburg

O autor, Dom Frei Carlos José Boaventura Kloppenburg, O.F.M. (1919–2009), aparece nesta edição ainda sob a designação pela qual se tornou conhecido em sua produção apologética: Frei Boaventura, O.F.M.

Posição Católica Perante a Umbanda integrou a coleção Contra a Heresia Espírita e foi publicada originalmente pela Editora Vozes, em 1954.

A presente edição da Editora Restauração Nacional — Selo Victor toma como base a 3ª edição da Editora Vozes, publicada em Petrópolis em 1957, realizando atualização ortográfica e revisão editorial. A edição inclui ainda apêndice, índice e vocabulário umbandista.

O apêndice reproduz inclusive material referente ao ritual de Umbanda, permitindo que o leitor conheça documentos e práticas que fazem parte do conjunto analisado pelo autor.

A Editora Restauração Nacional recupera esta obra para uma nova geração de leitores interessados em apologética católica, história religiosa brasileira, Espiritismo, Umbanda e relações entre diferentes tradições religiosas no Brasil.

Mais de sete décadas depois de sua primeira publicação, Posição Católica Perante a Umbanda permanece um documento importante para compreender como um dos mais conhecidos apologistas católicos brasileiros do século XX interpretou e respondeu à expansão da Umbanda em seu tempo.

Conteúdo da obra

Entre os principais temas tratados encontram-se:

  • Confusão na Umbanda

  • A palavra “Umbanda”

  • Umbanda é Espiritismo

  • Identidade substancial entre Umbanda e Allan Kardec

  • Umbanda, a Quarta Revelação

  • Umbanda é magia

  • Umbanda e Quimbanda

  • O panteísmo dos umbandistas

  • Consequências da doutrina reencarnacionista

  • Umbanda e Cristianismo

  • Posição Católica perante a Umbanda

  • Hierarquia e práticas religiosas

  • Instrumentos da magia umbandista

  • Diagnose e terapêutica umbandistas

  • O jogo dos búzios

  • Orixás e Santos Católicos

  • Sincretismo religioso

  • Exus e despachos

  • Os perigos da Umbanda

  • Normas de uma atitude prática perante a Umbanda

  • Apêndice: Ritual de Umbanda

O sumário da edição organiza essas matérias desde a discussão doutrinária inicial até as orientações práticas e o apêndice documental.

Ficha técnica

Título: Posição Católica Perante a Umbanda
Autor: Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M.
Nome completo: Dom Frei Carlos José Boaventura Kloppenburg, O.F.M.
Coleção original: Contra a Heresia Espírita — Vol. 5
Publicação original: 1954
Editora original: Editora Vozes Limitada
Edição-base da reedição: 3ª edição, Editora Vozes, Petrópolis, 1957
Editora da reedição: Editora Restauração Nacional — Selo Victor
Local: Joinville, Santa Catarina
Ano da reedição: 2026
Idioma: Português
Formato: 15 × 21 cm
Tratamento editorial: Atualização ortográfica e revisão editorial
Conteúdo adicional: Apêndice, índice e vocabulário umbandista
Projeto editorial: Editora Restauração Nacional
Diagramação e capa: Ferreira Martins
Coordenação: Gilso Junior e Luiz Octávio Cardoso Sousa “Lott”
Revisão: C. M. Duque
Categoria: Apologética católica, história religiosa brasileira, Umbanda e Espiritismo

Nota editorial

Esta é uma obra confessional e apologética, escrita originalmente em 1954 a partir da perspectiva doutrinária católica de seu autor. Expressões, avaliações e conclusões acerca da Umbanda e de outras tradições religiosas pertencem a Frei Boaventura e devem ser compreendidas no contexto histórico, teológico e pastoral em que o texto foi produzido.

Sua republicação possui interesse histórico, documental, religioso e acadêmico, permitindo o estudo das controvérsias entre diferentes tradições religiosas no Brasil do século XX. A crítica de doutrinas religiosas não deve ser confundida com desrespeito ou hostilidade às pessoas que professam essas crenças.