Livro de Coleção — Edição Histórica
Há personagens cuja importância histórica não pode ser compreendida apenas pela duração de sua vida pública. Em poucos anos, algumas figuras participam da fundação de movimentos, criam conceitos, intervêm nos grandes debates de sua época e deixam um conjunto de escritos que permanece indispensável para compreender as correntes políticas às quais estiveram vinculadas.
Ramiro Ledesma Ramos pertence a essa categoria.
Intelectual convertido em militante político, fundador das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista — JONS e um dos primeiros formuladores do nacional-sindicalismo espanhol, Ledesma desenvolveu praticamente toda a sua atuação política entre 1931 e 1936.
Esta Antologia procura reconstruir justamente esse itinerário através das próprias palavras de seu protagonista.
Publicada pela Ediciones FE, dentro da coleção Breviarios del Pensamiento Español, a edição aqui tomada como referência corresponde à segunda edição, de 1942, com seleção e prólogo de Antonio Macipe López.
Mais do que uma reunião de frases célebres, o volume constitui uma extensa seleção de manifestos, artigos, discursos, declarações políticas e reflexões doutrinárias, organizados de maneira a permitir que o leitor acompanhe a evolução do pensamento de Ledesma e sua atuação dentro da turbulenta Espanha dos anos 1930.
O prólogo dedica atenção especial à passagem de Ledesma do universo intelectual para a vida política.
Segundo Antonio Macipe López, sua formação anterior estava ligada à filosofia, às ciências físico-matemáticas, à universidade e ao ambiente cultural da Revista de Occidente e do Ateneo de Madrid.
Entretanto, ao entrar na política, Ledesma não teria pretendido fazê-lo simplesmente como intelectual.
O prólogo apresenta essa transformação como uma decisão de abandonar aquilo que chama de “elaborações ideais” para mergulhar nas realidades concretas e trabalhar diretamente com o homem e a sociedade tais como efetivamente existiam.
A política aparece, nessa leitura, menos como ciência abstrata e mais como arte, estratégia e ação.
Essa tensão entre pensamento e ação percorre toda a antologia.
Ledesma escreve sobre filosofia política, economia, história, nacionalidade e sociedade, mas seus textos estão quase sempre ligados a acontecimentos concretos, disputas políticas e necessidades estratégicas imediatas.
Por isso, a obra permite estudar não apenas aquilo que pensava, mas também como suas ideias eram aplicadas aos problemas que enfrentava.
A primeira grande etapa apresentada pela antologia começa em 1931, com La Conquista del Estado.
O volume reproduz trechos do manifesto político associado ao movimento, incluindo seções dedicadas à:
afirmação nacional;
estrutura sindical da economia;
doutrina política;
organização do movimento;
posição diante das eleições de abril de 1931;
República;
revolução;
questão catalã.
O prólogo situa o manifesto poucos meses antes da proclamação da Segunda República e atribui a Ledesma papel central em sua redação.
É nesse momento que aparece uma das preocupações fundamentais que acompanharão praticamente toda a sua obra: a percepção de uma profunda crise histórica espanhola e a necessidade, segundo sua interpretação, de uma ruptura com as formas políticas então existentes.
Sua posição também não se enquadrava simplesmente na divisão entre monarquistas e republicanos.
Os textos selecionados mostram Ledesma recusando-se a tratar a substituição da Monarquia pela República como solução suficiente para os problemas espanhóis. Para ele, a questão fundamental estaria além da simples forma institucional do regime.
A etapa seguinte acompanha diretamente a criação e o desenvolvimento das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista — JONS.
A antologia reproduz o manifesto político das Juntas, suas consignas, declarações programáticas, textos de organização e artigos destinados a definir aquilo que diferenciava o novo movimento das demais forças políticas.
Entre os documentos reunidos encontram-se textos intitulados:
“Por que nascem as Juntas”,
“Nossas consignas”,
“Nem democracia burguesa, nem marxismo!”,
“Rumo ao sindicalismo nacional das JONS” e
“Exame de nossa rota”.
A própria história das JONS ocupa uma seção significativa.
Ledesma relata episódios da formação e expansão da organização utilizando também o pseudônimo Roberto Lanzas, descrevendo os primeiros grupos, a militância universitária, a revista JONS, períodos de semiclandestinidade e tentativas de expansão entre estudantes e trabalhadores.
A antologia registra, por exemplo, o esforço de Ledesma em acentuar o caráter nacional-sindicalista e revolucionário da organização e em criar uma publicação teórica que servisse de instrumento doutrinário para o movimento.
Esses relatos dão à obra um interesse adicional: ela não é apenas uma coletânea de teoria política, mas também uma fonte primária sobre a organização e a mentalidade das primeiras JONS.
O segundo grande eixo da antologia é a unidade nacional espanhola.
Ledesma dedica numerosos textos à história da Espanha, à decadência nacional, ao separatismo, à questão catalã e à necessidade de reconstrução da unidade política.
O índice separa uma ampla seção denominada “A Unidade Nacional”, que começa por comentários sobre a história espanhola — incluindo o século XIX, a Restauração, Alfonso XIII, a ditadura e a Segunda República — e avança para textos diretamente relacionados à luta contra os movimentos separatistas.
Para compreender corretamente essa parte da obra, é importante perceber que a ideia nacional não surge em Ledesma apenas como um tema isolado.
Ela funciona como eixo de praticamente todo o seu sistema político.
No prólogo, Macipe López chega a definir a dimensão nacional como o centro ao redor do qual giraria todo o seu pensamento.
A partir dela são tratados problemas de Estado, economia, política externa, sociedade e organização popular.
Talvez o aspecto mais característico do pensamento reunido nesta antologia seja a tentativa de relacionar questão nacional e questão social.
O nacional-sindicalismo aparece precisamente como tentativa de fundir os dois elementos.
Em vez de um nacionalismo separado das preocupações econômicas e de um sindicalismo desvinculado da questão nacional, o projeto apresentado nos textos procura integrar ambos dentro de uma mesma concepção política.
O prólogo sintetiza essa formulação ao reproduzir a concepção de Ledesma segundo a qual não deveria existir, de um lado, “um nacionalismo para a Pátria” e, de outro, “um sindicalismo para o povo”, mas um nacional-sindicalismo aplicado simultaneamente ao povo espanhol e à Espanha.
Essa preocupação explica por que uma parcela tão ampla da antologia é dedicada a questões econômicas.
Na seção intitulada “Sentido Social”, Ledesma discute alguns dos principais problemas econômicos de seu tempo.
A seleção inclui reflexões sobre:
sindicalismo;
justiça social;
enriquecimento;
mecanização;
capital financeiro;
contradições do capitalismo;
desemprego;
trabalhadores;
capitalismo espanhol;
intervenção estatal na economia.
A economia, para Ledesma, não poderia ser analisada apenas em função do enriquecimento individual.
No prólogo, sua concepção é apresentada a partir da ideia de que a atividade econômica possui também finalidades nacionais, o que justificaria determinada intervenção do Estado sobre os fatores de produção e consumo.
Essa posição conduz a críticas simultâneas ao capitalismo liberal e ao marxismo.
Uma seção inteira da obra é intitulada “Frente ao Marxismo”.
Nela são reunidos textos sobre comunismo, luta de classes, bolchevismo e a interpretação de Ledesma sobre a Revolução Russa.
A crítica não se limita à economia.
Ledesma rejeita sobretudo aquilo que considera uma redução do povo a um simples agregado de interesses materiais.
Em um dos textos selecionados, sustenta que um povo é mais do que um conglomerado de preocupações econômicas, defendendo a existência de dimensões históricas e nacionais que, em sua visão, não poderiam ser explicadas apenas pelas relações de classe.
Ao mesmo tempo, o autor reconhece a necessidade de enfrentar concretamente os problemas sociais.
Sua resposta procura construir aquilo que entende como uma alternativa nacional-sindicalista tanto ao capitalismo liberal quanto ao comunismo.
A juventude ocupa posição excepcional dentro da antologia.
Ledesma via nas novas gerações uma força política capaz de romper com aquilo que considerava a esterilidade das estruturas tradicionais.
O volume dedica uma seção inteira à “Presença e destino das juventudes”, reunindo textos como:
Espanhóis jovens: em pé de guerra!
trechos da carta ao comandante Franco;
passagens do Discurso às Juventudes da Espanha;
reflexões sobre juventude e dimensão nacional;
o conceito político de “jovem”;
uma invocação final às juventudes.
Essa parte evidencia também o caráter radical e mobilizador de seus escritos.
Ledesma não concebia a transformação política essencialmente pelo caminho parlamentar. Diversos textos defendem mobilização revolucionária, ação direta e enfrentamento das estruturas existentes.
Na revista JONS, por exemplo, a característica revolucionária do movimento é apresentada como elemento que não poderia ser abandonado sem descaracterizá-lo.
Para o leitor contemporâneo, esses textos possuem especial importância justamente porque permitem observar diretamente a linguagem, os métodos e a concepção revolucionária adotados por uma corrente autoritária da política europeia entre-guerras.
Uma das partes historicamente mais interessantes da antologia reúne seis artigos sob o título “¿Fascismo en España?”
Ledesma examina o fascismo italiano e sua projeção internacional, mas já no início da seção faz uma ressalva significativa.
Ao utilizar o termo “fascismo”, afirma fazê-lo parcialmente por conveniência do vocabulário político internacional e manifesta dúvidas quanto à existência de características verdadeiramente universais capazes de transformar o fascismo italiano numa fórmula idêntica para todos os países.
Essa seção permite compreender de maneira mais precisa como Ledesma interpretava o fascismo europeu e, sobretudo, como procurava definir uma via especificamente espanhola dentro das correntes autoritárias e nacional-revolucionárias dos anos 1930.
A antologia não deve, portanto, ser reduzida a uma simples reprodução do fascismo italiano.
Ela permite acompanhar as tentativas do próprio Ledesma de distinguir, aproximar e adaptar diferentes conceitos à realidade espanhola.
A preocupação nacional conduz inevitavelmente à política externa.
Ledesma escreve sobre a debilidade internacional espanhola, o Mediterrâneo, Gibraltar, Portugal, África e as relações com a América de língua espanhola.
Na interpretação apresentada pela antologia, a debilidade externa seria consequência também da fragilidade política e econômica interna.
Entre suas propostas e especulações aparecem a recuperação de Gibraltar, maior aproximação com Portugal, expansão da presença espanhola no norte da África e intensificação dos vínculos políticos, econômicos e culturais com a América hispânica.
Ao mesmo tempo, seus textos revelam certa cautela diante da política internacional: Ledesma afirma que a Espanha ainda não dispunha das condições necessárias para conduzir uma política externa plenamente autônoma e deveria evitar envolver-se irrefletidamente nas disputas entre as potências europeias.
Um mérito particular da seleção é não terminar apenas nos grandes conceitos.
As últimas páginas incluem textos sobre questões muito concretas, entre elas:
O indivíduo morreu
Os intelectuais e a política
O problema do trigo
As minas de Riotinto
Isso permite observar Ledesma tratando de problemas econômicos específicos.
No artigo dedicado às minas de Riotinto, publicado em julho de 1936 sob o pseudônimo Roberto Lanzas, por exemplo, questiona a alienação histórica das minas e defende seu retorno ao controle do Estado, utilizando argumentos ligados à soberania econômica e aos interesses dos trabalhadores espanhóis.
A presença desses textos concretos ajuda a mostrar que a antologia não reúne apenas fórmulas políticas gerais: apresenta também aplicações específicas de sua visão econômica e nacional.
Há ainda uma característica essencial para qualquer leitura contemporânea desta edição.
O prólogo de Antonio Macipe López, datado de Madrid, março de 1940, não foi escrito como uma análise acadêmica posterior e distante.
É um texto produzido dentro do próprio ambiente político surgido da Guerra Civil Espanhola e apresenta Ledesma de maneira abertamente elogiosa, interpretando sua atuação a partir da perspectiva nacional-sindicalista e do novo regime espanhol.
Isso significa que o prólogo possui duplo valor documental.
Ele ajuda a introduzir os textos de Ledesma, mas também permite estudar como sua figura e sua obra eram interpretadas e incorporadas à cultura política espanhola poucos anos depois de sua morte.
Essa característica torna indispensável distinguir entre os escritos de Ledesma e a interpretação de Antonio Macipe, ainda que ambos sejam historicamente relevantes.
Ramiro Ledesma Ramos — Antologia reúne, em um único volume, textos que percorrem quase todo o breve período de sua atuação pública.
Da fundação de La Conquista del Estado às JONS; da unidade nacional à economia; da crítica ao marxismo à crítica do liberalismo; da juventude à política internacional; do debate sobre fascismo aos problemas concretos do trigo e de Riotinto, o livro permite acompanhar a formação e o desenvolvimento de uma das correntes mais controversas da política espanhola do século XX.
A Editora Restauração Nacional recupera esta obra em língua portuguesa como fonte para estudantes, pesquisadores e leitores interessados na Segunda República Espanhola, nacional-sindicalismo, JONS, fascismos europeus, Guerra Civil Espanhola e história das ideias políticas do período entre-guerras.
Seu interesse histórico reside precisamente na possibilidade de encontrar, em um único documento, tanto os principais textos de Ramiro Ledesma quanto uma interpretação de sua obra produzida quase contemporaneamente aos acontecimentos que marcaram sua trajetória.
A antologia está organizada em grandes conjuntos temáticos que incluem:
Trajetória Política — fevereiro de 1931 a julho de 1936
Manifesto Político de La Conquista del Estado
Etapa de La Conquista del Estado
Etapa das JONS
História das JONS narrada por seu fundador
Discurso às Juventudes da Espanha
Unidade Nacional
Comentários à história e à decadência espanhola
Luta contra o separatismo
Crítica ao marxismo
Sentido Social
Economia, capitalismo e sindicalismo
Incremento demográfico e fortalecimento militar
Política internacional
Presença e destino das juventudes
Seis artigos: ¿Fascismo en España?
O indivíduo e a política
Os intelectuais e a política
O problema do trigo
As minas de Riotinto
Título: Ramiro Ledesma Ramos — Antologia
Título original: Ramiro Ledesma Ramos — Antología
Autor dos textos: Ramiro Ledesma Ramos
Seleção e prólogo: Antonio Macipe López
Coleção original: Breviarios del Pensamiento Español
Editora original: Ediciones FE
Edição-base: Segunda edição
Ano da edição-base: 1942 — MCMXLII
Local de impressão: Madrid
Impressão original: Gráficas Uguba, Meléndez Valdés, 7
Período principal dos textos políticos: fevereiro de 1931 a julho de 1936
Editora da reedição: Restauração Nacional
Idioma da nova edição: Português
Edição: Reedição histórica em língua portuguesa
Categoria: História da Espanha, pensamento político, JONS, nacional-sindicalismo e movimentos políticos europeus do século XX
A identificação da edição como segunda edição de 1942, publicada pela Ediciones FE e organizada por Antonio Macipe López, consta diretamente da folha de rosto original.
Esta obra reúne textos produzidos no contexto das disputas políticas da Espanha dos anos 1930 e contém a defesa de posições nacional-sindicalistas, autoritárias, revolucionárias e de métodos políticos próprios daquele período. O prólogo de Antonio Macipe López, igualmente histórico, foi escrito em 1940 a partir de uma perspectiva explicitamente favorável a Ledesma e ao ambiente político do pós-Guerra Civil.
A presente reedição possui finalidade histórica, documental, cultural e acadêmica. A preservação integral desses textos permite estudar diretamente a linguagem, as ideias e as controvérsias de uma das correntes políticas da Espanha do século XX, não implicando necessariamente adesão editorial às posições defendidas pelos autores.