Livro de Coleção — Edição Histórica
Há homens que atravessam a história. Outros ajudam a moldá-la.
Durante quase três décadas, Francisco Franco esteve no centro das grandes decisões que determinaram os rumos da Espanha, conduzindo o país através da guerra, da reconstrução, do isolamento internacional, da reorganização institucional e de uma profunda transformação econômica e social.
Soldado e governante, Franco surge nesta obra não simplesmente como protagonista de uma época, mas como homem de Estado dotado de uma concepção própria de Espanha, autoridade, sociedade, economia, tradição, justiça social e destino nacional.
É precisamente essa dimensão que O Pensamento Político de Franco — Antologia procura revelar.
Publicada originalmente em 1964, no contexto das comemorações dos chamados XXV Anos de Paz, a obra foi organizada por Agustín del Río Cisneros, que realizou uma extensa seleção e sistematização dos discursos, mensagens, declarações, entrevistas, alocuções e manifestações públicas de Francisco Franco.
O resultado é provavelmente uma das mais amplas portas de entrada para quem deseja compreender o franquismo a partir das próprias palavras de Franco, e não somente pelas interpretações posteriores de seus admiradores ou adversários.
Franco não aparece nestas páginas como um teórico encerrado em um gabinete.
Suas ideias foram formuladas paralelamente ao exercício efetivo do poder.
Estado, economia, educação, religião, organização social, política internacional, juventude, trabalho, representação política e sucessão institucional não constituem, neste volume, meros exercícios intelectuais: são assuntos sobre os quais o governante espanhol precisou tomar decisões concretas.
É justamente isso que confere à obra uma de suas características mais interessantes.
Pensamento e governo caminham juntos.
Agustín del Río Cisneros explica que seu trabalho abrange textos de Franco desde 18 de julho de 1936 até abril de 1964, acompanhando aproximadamente vinte e oito anos de atuação política. A intenção declarada foi identificar as constantes existentes nessa longa trajetória e organizá-las de maneira doutrinariamente coerente.
Não estamos, portanto, diante de uma simples coleção de frases.
Trata-se da tentativa de reconstruir um sistema político inteiro através das palavras daquele que esteve no centro de sua formulação e aplicação.
A estrutura da obra acompanha aquilo que seus organizadores entendiam como a grande trajetória histórica do regime.
O período iniciado em 1936 é apresentado como ruptura com uma Espanha marcada por sucessivas crises políticas e sociais. A partir daí, o volume acompanha a Guerra Civil, a vitória nacionalista, a consolidação do novo Estado, a posição espanhola durante a Segunda Guerra Mundial, o isolamento internacional do pós-guerra e a posterior abertura econômica e diplomática.
Del Río Cisneros divide essa evolução em grandes momentos: 1936–1939, a guerra; 1939–1945, a consolidação da paz interna e a neutralidade espanhola diante da guerra mundial; 1945–1950, a defesa da soberania espanhola durante o isolamento internacional; 1950–1960, a abertura exterior e o crescimento; e, finalmente, 1961–1964, entendido pelo organizador como o início de uma nova etapa de desenvolvimento político, social e econômico.
É uma narrativa evidentemente construída a partir da perspectiva do próprio regime — e justamente por isso possui enorme valor documental.
O leitor acompanha como Franco interpretava sua própria obra histórica.
O caráter admirativo da edição original aparece com toda força no prólogo de Manuel Fraga Iribarne, então Ministro da Informação e Turismo.
Fraga não apresenta Franco simplesmente como governante circunstancial. O prólogo procura retratá-lo como o homem capaz de assumir um Estado em profunda crise e reconstruir progressivamente sua autoridade, suas instituições e sua capacidade de organização.
Sua avaliação é particularmente significativa porque identifica em Franco algo superior à simples habilidade para aproveitar oportunidades políticas: para Fraga, ele possuiria características próprias de um verdadeiro homem de Estado.
O prólogo associa os primeiros vinte e cinco anos do regime ao desenvolvimento econômico, às transformações sociais, à expansão do ensino, às obras hidráulicas, à segurança social e à reorganização institucional da Espanha.
Mais adiante, Fraga apresenta a chave daquilo que considera a eficácia política do regime: um pensamento claro, realista, atento aos grandes problemas contemporâneos e simultaneamente alimentado pela tradição espanhola.
É dentro dessa moldura profundamente favorável que a antologia foi originalmente concebida.
O alcance da seleção impressiona.
Depois dos discursos introdutórios, a obra reúne nada menos que 834 textos selecionados, distribuídos segundo grandes temas e organizados cronologicamente dentro de cada seção.
Del Río Cisneros explica que realizou previamente a leitura do conjunto de discursos, mensagens, entrevistas, declarações e intervenções de Franco compreendidos entre 1936 e 1964.
A partir desse enorme material, selecionou os fragmentos considerados mais representativos das constantes de seu pensamento.
Cada trecho foi organizado com numeração, título, conteúdo e referência de data, local e circunstância em que as palavras foram pronunciadas, permitindo que a obra funcione tanto como antologia doutrinária quanto como instrumento de consulta histórica.
É um trabalho de fôlego.
Em vez de obrigar o leitor a percorrer décadas de discursos para identificar a posição de Franco sobre determinado assunto, a antologia reúne os principais elementos em uma arquitetura temática coerente.
Um conceito ocupa posição especialmente importante no volume:
a síntese entre Tradição e Revolução.
A proposta apresentada não é simplesmente restaurar integralmente uma ordem política desaparecida, tampouco aceitar passivamente as transformações modernas.
A ideia é buscar na tradição histórica espanhola princípios capazes de orientar uma reorganização institucional adaptada às condições do século XX.
É nesse ponto que se encontram alguns dos elementos mais característicos da visão política apresentada no livro: continuidade histórica, autoridade, unidade nacional, justiça social, comunidade, representação orgânica e renovação institucional.
A própria organização da obra reserva ao Movimento Nacional um capítulo definido como síntese de Tradição e Revolução, tratando da unificação, das diferenças entre movimento e partido e de seus objetivos políticos.
Franco procura apresentar seu sistema não como uma simples reação ao passado recente, mas como um projeto destinado a construir instituições permanentes.
Talvez nenhuma tríade resuma tão claramente parte do universo doutrinário reunido na obra quanto:
Fé. Pátria. Cultura.
Um dos grandes capítulos recebe exatamente o título Fe, Patria y Cultura.
Nele aparecem temas como:
Catolicismo
Espanholidade
Educação
Formação profissional e técnica
Universidade
Juventude
Para Franco, na seleção apresentada, a reconstrução material de um país seria insuficiente sem a conservação de um conjunto de fundamentos espirituais e morais.
O desenvolvimento econômico aparece ao lado da defesa da fé religiosa, da unidade nacional, da dignidade da pessoa, do trabalho e da justiça social.
Em discurso reproduzido pela antologia, Franco associa a continuidade nacional aos princípios da ordem cristã, ao mesmo tempo em que afirma a dignidade humana, o valor do trabalho, a justiça social e a participação do homem através das entidades naturais da comunidade.
É aí que a obra permite enxergar Franco não apenas como comandante militar, mas como governante preocupado em formular uma visão integral da sociedade.
Outro grande eixo é a organização do Estado.
A obra dedica uma extensa seção àquilo que denomina “Ordem Política e Sistema Institucional”, tratando de:
Princípios do Movimento Nacional;
pessoa humana;
Estado;
Cortes;
processo constitucional;
Leis Fundamentais;
continuidade e funcionamento do regime.
A preocupação recorrente é clara: transformar uma ordem nascida em circunstâncias extraordinárias numa arquitetura institucional capaz de sobreviver ao próprio fundador.
Isso é particularmente interessante porque Franco reconhece explicitamente que determinados poderes concentrados em sua pessoa eram, por sua própria natureza, impossíveis de simplesmente transmitir a um sucessor.
A solução defendida passa pela progressiva institucionalização das funções do Estado, do Governo e do Movimento, além da consolidação das chamadas Leis Fundamentais.
Dessa forma, o livro mostra um Franco que não pensa apenas na conquista e conservação do poder, mas na continuidade histórica das instituições.
No lugar da representação centrada exclusivamente nos partidos políticos, a doutrina apresentada procura organizar a participação pública através daquilo que considera entidades naturais da vida social.
A antologia dedica um capítulo às Bases da Democracia Espanhola, incluindo:
democracia orgânica;
entidades naturais e representação;
família;
município e vida local;
sindicato.
A intenção era formular uma representação baseada não apenas no indivíduo isolado como eleitor, mas também nas comunidades e funções concretas das quais participava.
A família, a comunidade local e a organização profissional surgem, assim, como pilares da estrutura representativa concebida pelo regime.
Para seus defensores, esse modelo pretendia superar tanto a atomização liberal quanto a concepção marxista fundada na luta de classes.
Seria um erro reduzir O Pensamento Político de Franco simplesmente a autoridade, nacionalismo e religião.
Uma parcela considerável do livro é dedicada à questão social.
O índice contém capítulos inteiros intitulados:
“Sinal Social do Tempo”,
“Luta de Classes”,
“Linha Construtiva — Batalhas de Transformação Nacional” e
“Crescimento Econômico e Progresso Social”.
O trabalho aparece repetidamente como fundamento de dignidade e participação social.
Da mesma maneira, a justiça social é apresentada como um dos princípios fundamentais da ordem política.
A proposta procura substituir a luta permanente entre classes por uma concepção de cooperação nacional, na qual interesses econômicos diferentes deveriam ser integrados dentro de objetivos superiores da comunidade.
É provavelmente no contraste entre a Espanha pobre encontrada pelo novo regime e a Espanha que o próprio franquismo procurava apresentar em 1964 que o tom da antologia se torna mais triunfal.
Os textos tratam de industrialização, emprego, eletrificação, política hidráulica, irrigação, produção nacional e modernização econômica.
Franco recorda a necessidade inicial de combater o desemprego e ampliar a capacidade produtiva espanhola, associando a reconstrução à criação de uma grande rede elétrica, ao aproveitamento das águas, aos reservatórios e à transformação industrial.
O preâmbulo de Del Río Cisneros vai ainda mais longe, apresentando o conjunto da obra política do período como uma associação entre desenvolvimento material, transformação social, segurança econômica, espiritualidade, dignidade humana e reorganização institucional.
Para o organizador, o pensamento de Franco representaria uma verdadeira síntese entre Tradição e Modernidade.
É difícil imaginar formulação mais adequada ao espírito desta obra.
O Catolicismo ocupa posição decisiva.
Não como elemento meramente privado da personalidade de Franco, mas como parte constitutiva de sua interpretação da Espanha.
A concepção cristã aparece vinculada à moral pública, à dignidade da pessoa, à educação, à família e à própria continuidade histórica nacional.
Na apresentação de Del Río Cisneros, essa dimensão espiritual distingue o projeto político que procura sistematizar das diferentes formas de materialismo do século XX.
A antologia é, nesse sentido, particularmente valiosa para quem deseja compreender a relação entre franquismo, Catolicismo, nacionalidade espanhola e doutrina social sem recorrer apenas a interpretações exteriores ao próprio regime.
Outro capítulo de enorme importância histórica é dedicado à Sucessão.
O subtítulo é revelador:
“A Monarquia e a Culminação Institucional”.
A Monarquia aparece inserida dentro do problema mais amplo da continuidade do Estado.
Franco procura pensar uma ordem que não termine com sua própria pessoa.
Daí a insistência presente em diversos discursos sobre instituições permanentes, normas fundamentais e mecanismos capazes de assegurar a continuidade da estrutura política.
Para o leitor interessado na tradição monárquica espanhola, esse capítulo é especialmente significativo porque permite observar como a instituição monárquica era compreendida dentro da arquitetura política do próprio franquismo.
A política externa ocupa também posição própria.
Entre as últimas grandes partes encontra-se “España abierta al mundo” — “Espanha aberta ao mundo”.
A trajetória narrada pela obra passa da neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial e do isolamento internacional dos anos imediatamente posteriores para uma progressiva abertura diplomática, econômica e internacional.
O objetivo declarado é uma Espanha soberana, capaz de relacionar-se com outras nações sem abdicar de sua independência e de sua personalidade histórica.
A antologia procura, assim, unir duas ideias que aparecem repetidamente no pensamento franquista aqui sistematizado:
abertura sem dissolução; modernização sem renúncia; desenvolvimento sem perda de identidade.
Agustín del Río Cisneros deixa bastante claro que não considerava seu trabalho uma simples coleção de curiosidades políticas.
Para ele, o volume deveria funcionar como documento histórico de primeira ordem, síntese de experiência e pensamento, interpretação da Espanha, doutrina social e institucional e testemunho de uma época.
No encerramento do preâmbulo, vai ainda mais longe: apresenta o livro explicitamente como testemunho de sua adesão à figura histórica de Franco.
É importante conservar esse dado porque explica o caráter da publicação.
O Pensamento Político de Franco foi organizado por homens que acreditavam profundamente na obra política que estavam documentando.
Seu objetivo não era desconstruir Franco, mas compreendê-lo, sistematizá-lo e apresentá-lo como estadista e formulador político.
E justamente por isso a obra possui valor excepcional para o leitor atual.
Aqui não encontramos um Franco reconstruído décadas depois por seus adversários nem uma personagem filtrada por intermináveis disputas historiográficas.
Encontramos Franco através de Franco, selecionado e organizado por contemporâneos que conviveram diretamente com seu regime e desejavam preservar aquilo que consideravam a essência de seu pensamento.
Para os leitores que reconhecem em Franco um exemplo de autoridade, unidade nacional, continuidade histórica, defesa da civilização cristã, soberania e serviço à Pátria, esta antologia oferece algo especialmente valioso: uma visão ampla e sistematizada de suas ideias, construída a partir de quase três décadas de discursos e atuação política.
A Editora Restauração Nacional recupera, assim, uma obra monumental do pensamento político espanhol do século XX, permitindo ao leitor brasileiro entrar em contato direto com um dos governantes mais decisivos — e inevitavelmente controversos — da história contemporânea da Espanha.
A publicação está organizada em grandes eixos:
Atualidade Doutrinária e Política — Espanha aos XXV Anos de Paz
A Cruzada
A Vitória
Crítica Histórica — Liberalismo e Antigo Regime
O Movimento — Síntese de Tradição e Revolução
Revolução
Fé, Pátria e Cultura
Catolicismo
Espanholidade
Educação
Formação profissional e técnica
Universidade
Juventude
Ordem Política e Sistema Institucional
Princípios do Movimento Nacional
Pessoa humana
Estado
Cortes
Processo constitucional e Leis Fundamentais
Bases da Democracia Espanhola
Democracia orgânica
Representação
Família
Município
Sindicato
Sinal Social do Tempo
Luta de Classes
Linha Construtiva — Batalhas de Transformação Nacional
Crescimento Econômico e Progresso Social
Sucessão — A Monarquia e a Culminação Institucional
Espanha Aberta ao Mundo
Novo Panorama de Vida — Tempo de Transição Universal
Índice Analítico
Tabela de Referências
Índice Geral
O sumário original apresenta essa extraordinária amplitude temática logo nas primeiras páginas.
Título: O Pensamento Político de Franco — Antologia
Título original: Pensamiento Político de Franco — Antología
Autor dos textos: Francisco Franco
Seleção e sistematização: Agustín del Río Cisneros
Prólogo: Manuel Fraga Iribarne
Preâmbulo: Agustín del Río Cisneros
Publicação original: 1964
Publicação: Servicio Informativo Español — Madrid
Período documental abrangido: 18 de julho de 1936 a abril de 1964
Estrutura documental: 834 textos selecionados, além dos discursos completos que introduzem a obra
Organização: grandes temas, com ordenação cronológica interna
Editora da reedição: Restauração Nacional
Idioma da nova edição: Português
Edição: Reedição histórica em língua portuguesa
Categoria: História da Espanha, pensamento político, franquismo, Catolicismo, Estado, sociedade e história europeia do século XX
Esta antologia foi produzida originalmente dentro do próprio contexto político do regime de Francisco Franco e possui orientação declaradamente favorável ao governante e à obra institucional então desenvolvida na Espanha. Seu prólogo e preâmbulo constituem, portanto, documentos históricos tão relevantes quanto os discursos selecionados.
A presente reedição preserva esse caráter original e disponibiliza o material para fins históricos, documentais e intelectuais, permitindo ao leitor conhecer diretamente a formulação política do franquismo e a interpretação que seus próprios protagonistas faziam do regime.